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Eu Jogo RPG

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Eu Cultuo o deuS bizarrO

Eu Cultuo o deuS bizarrO alienigenA

 

Extraído de "Redenção", a partir do topo da página 127
16/01/200210:04

"(...)

sível àquela hora - 4h42 a.m. Na escada não mais apenas a dupla solitária; a eles se juntaram outros oito ou nove. Almas solitárias numa noite estranha, testemunhando o flerte da lua com as nuvens pelo telhado de vidro acima da escadaria. se escora na parede ainda abraçado à garrafa. Pouco antes de esboçar um impulso de subir, pude notar a expressão apreensiva (ainda que apática) nos rostos de e . A inquietude duraria ainda alguns segundos, longos e tensos segundos, antes que um dos dois quebrasse o silêncio torturante. - ? A confirmação veio primeiro pelo olhar parado, e logo depois definitiva, direta e clara em seus lábios. E embora ela mesma mal pudesse acreditar no que dizia, .

Aquilo ecoou nos ouvidos e mentes de todos naquela escada. Não com dor, não com desesperança, apenas com resignação. e se beijaram, do jeito mais belo possível, com um carinho que nunca nenhum de nós havia visto entre os dois; e compreenderam o tamanho da perda e de como ela não tinha volta. E entre lágrimas - sinceras com nunca antes - eles sorriram, e choraram, e ficaram ali, abraçados, quase numa despedida silenciosa... Naquele momento, todos naquela escada estava quietos, olhando o fim de lua que finalmente aparecia por trás das nuvens. Foi apenas um instante... quase como numa catarse, todos entendemos de uma forma ou de outra que nada mais seria o mesmo. Nenhum de nós seria o mesmo.

A manhã apareceu coberta pela inversão térmica. Na sala, alguém acordou e ligou o CD player. A voz suave de Bayou preencheu timidamente o ambiente - "You don't have to change the way you are... I really don't think you're giving yourself a chance... I wish you could hear someone who says 'Baby don't change, baby don't change'... Do your own thing, you're beautiful the way you are" ... Depois da noite passada as palavras ecoavam quase com ironia, mas não uma ironia sarcástica... era como se estivesse cantando pelo cantar, com se as palavras se ajustassem entre si como quadros e cômodas, preenchendo lacunas, alheias ao que quer que pudessem estar significando a quem ouvisse. E foi tão bonito, e puro, e honesto, que todos ali fecharam os olhos e se deixaram preencher pelo som rouco e suave. outra reação da distância que seria perene dali em diante.

O avançar das horas trouxe novos barulhos: pessoas acordando, portas abrindo, chuveiros sendo ligados. O CD crescia no mesmo ritmo, de modo que ao chegar em uma das últimas faixas, "Goodbye Heartbreak", os ânimos novamente estavam sob controle, como convém a nós civilizados. Os espíritos, espurgados, se uniam ao canto de purificação... "so long heartache, don't look for me cause I don't need you now".

Mas nem a conversa risonha e banal perto da copa - onde , e os outros preparavam animadamente um protótipo de café - se sobrepunha à indisfarçável mudança operada em nós naquela noite. Nunca olhos se cruzaram tanto; nunca expressões mudas disseram tanto e de forma tão clara. E em meio a toda esse diálogo surdo reinava uma calma nova e revigorante, de quem, ainda que por um momento, não teme mais nada porque revelou todas suas chagas. Éramos o olho do furacão, a calmaria no centro da tormenta, e essa sensação, longe de machucar, dava nova e inesperada liberdade entre nós.

Saímos às 4h30. nos acompanhou após a limpeza - senti que ele não queria ficar ali sozinho com todas as nossas máculas. Compreensível. Eu não ficaria também :) Da porta, ainda olhei pela última vez para a escada, o hall, a sala larga... os cômodos pareciam agora menos vívidos, desprovidos daquele calor de que nos lembrávamos. Olhei e tive certeza de que, afinal, nós fazíamos alguma diferença.

Desci o pequeno lance de degraus baixos rumo ao carro. As roupas limpas sobre o corpo recém lavado me fizeram sentir bem, como um neonato após seu primeiro banho no hospital; à frente, a velha estrada tinha um quê de novo. Mas não era mérito próprio; eram novos olhos que a fitavam. Nos despedimos ali mesmo. um grande abraço coletivo, algumas lágrimas sinceras, alguém solta uma private joke do grupo - um canto tribal moderno, uma comunhão grupal, como se disséssemos "ei, isso é nossa herança, isso é só nosso". Um bando de adolescentes, os mais velhos que eu já conhecera.

Deixamos e na estação de trem. Os dois ainda tinham muito o que conversar, e iam para o interior por uns dias. nos acompanharam até nossa casa, e pernoitaram por lá antes de seguir viagem. O clima frio e a proximidade do Natal deram a nosso último chá um toque saudosista, como em nossas primeiras conversas quase há 17 anos. Não por coincidência, o grosso tomo de contos de C.S. Lewis ainda repousava sobre a lareira.

e se casaram menos de 10 semanas depois. "Os cálculos não foram apurados", ainda sorri quando lembra do fato. De um jeito ou de outro ainda estão juntos. e ainda não se falam direito, mas algo no ar promete uma reconciliação (diplomática ao menos) em breve. , e montaram seu negócio, que faliu menos de seis meses depois. Mas ainda riem juntos.

Faz oito anos que saímos dali. Oito anos que morremos e renascemos em uma noite fria em Redenção. Oito anos desde que, ali na porta da frente, me virei e lancei um último olhar para a escada principal que nunca mais seria a mesma, na velha casa em Redenção. Desde então, religiosamente, nos reunimos todo 05 de dezembro. Para juntar os cacos, sorrir entre amigos e combater a noite negra, o fim de nossas vidas solitárias, contra todos os revezes.

(...)"